Arnaldo

setembro 10, 2011

09.08.2010

Tomei meu café com leite e canela e, lavando os pratos que se acumularam por dias, talvez semanas, chorei. Nunca gostei de afazeres domésticos, mas o motivo de meu choro não foi a louça suja em si. Enquanto esfregava os pratos, vieram-me à mente pessoas, situações, cenas de filmes, trechos de músicas, poesias e tudo que havia de mais triste no mundo inteiro, em todos os tempos, me doeu naquele instante.

Senti-me todas as mocinhas desafortunadas pelo destino, sem amor; todas as crianças órfãs; todos os homens que lutam por uma causa perdida; todos os que têm tudo, materialmente, e sentem o vazio de não ter uma alma – ou qualquer coisa equivalente; todos os que tiveram sua dignidade roubada; os que sofrem por qualquer motivo, o mais tolo dos motivos, qualquer um: a menina que derruba o sorvete na areia da praia; a mãe que vê o filho partir; o pai que tem contas a pagar, o bolso vazio, o copo cheio…

Senti-me todos os sofredores de todos os tempos e chorei por eles e suas dores. Sentei-me sob o olhar de Arnaldo, o gato negro que gostava do meu quarto – e por inúmeras vezes, fora minha única companhia – e chorei. Sabe-se lá o que se passa na cabeça de um gato, se é que se passa. Se se passasse, Arnaldo pensaria: Coitada da moça que pega emprestados motivos para chorar e poder fingir que tem alguma emoção na vida.

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